Gostaria de humildemente e respeitosamente deixar minha contribuição no debate iniciado pela jornalista paraibana Rachel Sheherazade, onde a mesma coloca seu ponto de vista sobre o carnaval em um editorial de um jornal local na Paraíba.
Esse é o vídeo que inspirou a minha resposta:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=xY2BSJ6Xttg
Esse é o vídeo que inspirou a minha resposta:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=xY2BSJ6Xttg
Vou começar tentando fazer o contraponto aos principais pontos que a jornalista levanta em seu discurso, e levando minha contribuição com opiniões pessoais embasadas em estudos e experiências que me ajudaram a formar tal ponto de vista.
Primeiramente ela começa falando que o carnaval não é uma festa de origem brasileira, o que de fato é verdade. Mas ela fala isso como se esse fato fosse diminuir a manifestação, que do ponto de vista lúdico e cultural, pode sim ser considerada, no formato atual, uma festa brasileira. E qual seria o problema com isso? O macarrão não é uma invenção italiana; o futebol não é um esporte criado no Brasil; Lula não foi um Presidente letrado. Tal afirmação é apenas o início da demonstração de como o discurso da jornalista segue numa linha de tendencionismo e preconceito com tal manifestação, pois demonstra uma visão estereotipada e reduzida do fenômeno em questão.
O carnaval é um feriado eclesiástico, pois tem como base o feriado da semana santa. A terça-feira de carnaval é sempre 47 dias antes da sexta-feira da paixão, outro feriado eclesiástico que faz parte do calendário litúrgico ao redor do planeta nas sociedades cristãs. A origem do carnaval, segundo pesquisadores, data do século VII, quando definiu-se que num determinado período do ano as pessoas deveriam cumprir a chamada “quaresma”, que seria um momento de reflexão sobre a espiritualidade, onde deveria-se evitar festas, consumo de carne vermelha, sexo, etc. E o primeiro dia dessa quaresma seria a quarta-feira de cinzas. O que acontece é que as pessoas sabendo que iriam ter que cumprir tal sacrifício durante 40 dias, os dias que antecediam a quarta de cinzas eram marcados por grandes momentos de festa.
Num segundo momento ela afirma que o carnaval não é uma festa popular, usando o termo “balela” para os inocentes que utilizam de tal argumento. Ela diz que não é uma boa oportunidade para pequenos empresários, generaliza de forma grotesca, demonstrando grande desconhecimento sobre o que de fato acontece ao redor do país, generalizou, e quem generaliza corre grande risco de falar bobagem. Eu poderia citar aqui umas 100 (isso mesmo, cem) cidades pelo menos no Brasil que são adeptas de práticas populares no seu carnaval. Mas para evitar o desgaste meu e do leitor, gostaria de citar minha cidade natal, Belo Horizonte/MG e mais outro exemplo no interior do meu estado. Belo Horizonte já teve sim tradição em carnaval, tal como acontece (guardadas as devidas proporções) no Rio de Janeiro. Já foi, outrora, considerado o segundo melhor carnaval do país. Hoje a cidade tenta de forma tímida com grandes dificuldades manter a tradição de carnaval com seu desfile de escolas e blocos caricatos. O carnaval está fraco, sim está. Mas ele é um carnaval 100% gratuito, onde as pessoas que quiserem podem ir acompanhar o desfile das escolas e se divertir um bocado. Nesses dias o transporte público tem uma promoção, onde o usuário paga somente uma passagem com seu cartão de transporte público local, para transitar a vontade pela cidade, ou seja, é possível um cidadão sair de sua casa gastando algo em torno de 3 reais e curtir um carnaval. Nas prévias também encontram-se eventos de qualidade espalhados pela cidade, eventos de um bom nível, sem violência e muita diversão. Não gosta de desfile de escolas? Então vamos a outra modalidade. Gostaria de citar um carnaval muito popular na cidade de Diamantina, 270km de BH. O carnaval de Diamantina (como acontece com diversas outras cidades pelo país) é carnaval de rua, onde participa quem quer, e também paga quem quer. Há pessoas que pagam uma grana para ficar dentro de uma corda, para curtir a mesma música e ficar a menos de 1 metro de distância de outra pessoa que nada pagou. Então por que a afirmação que é festa pra rico? No próprio Rio de Janeiro onde temos o carnaval mais famoso do país, se vê blocos de rua, onde curte quem quer. E pra não deixar de citar Salvador, onde tem também blocos gratuitos, abertos ao público, com as mesmas bandas caras que ela cita mais ao final de seu comentário. Sobre o que ela fala dos pequenos comerciantes: Ninguém nunca afirmou que os pequenos comerciantes dependem do carnaval para viver, como ela fala em seu discurso. Mas eu deixo o seguinte questionamento: Se ela fala que não é bom, por que entra ano, sai ano, e lá estão os mesmos senhores e senhoras tentando dignamente fazer o seu “ganha pão” durante o carnaval? Pergunta para um pequeno empresário dono de um restaurante pequeno ou para um agente de viagens, ou quem sabe um dono de um barzinho na esquina se ele acha o carnaval ruim. Pergunta para o catador de latinhas se ele acha o carnaval ruim. Pergunte para o promotor de eventos, mesmo que autônomo, se ele acha o carnaval ruim. Pergunte para o proprietário dessa rede de televisão que a jornalista trabalha se o carnaval é ruim.
Depois generaliza novamente falando que o carnaval virou negócio, e dos ricos. Não sei se a Srta. tem filhos, ou se tem pais, ou marido. Mas todos os feriados e dias comemorativos são negócio. Essa é a lógica do mundo capitalista, se está insatisfeita, mude para Cuba, onde ainda existe um resquício do regime socialista-comunista. No dia dos namorados você não compra nada para seu acompanhante não? E no dia das crianças, será que não compra uma lembrancinha para as crianças da família? E no natal? Poupe-nos de tamanha hipocrisia.
Logo adiante ela demonstra preconceito com gosto musical. Afirma que no carnaval a suposta boa música é calada a força por hits do momento. Ponto de vista totalmente preconceituoso e sem embasamento. O que seria boa música? Isso é um conceito subjetivo. Quem somos nós para julgar se o que muita gente está gostando é música ruim? Só pela letra? Vivemos hoje um momento em que há muito preconceito musical. Se a música é boa ou ruim, só nós podemos saber nos tomando como referência, e não para uma opinião abrangente, levando isso para uma dimensão maior, como uma verdade absoluta. Todas as manifestações devem ser respeitadas. Não gosta? Não ouça, saia de perto, desligue o som, ligue sua música, se vire.
Ela retrata indignação com a quantidade de ambulâncias e polícia no evento. O que você sugere Srta? Que esses serviços públicos não estejam disponíveis numa festa que move multidões? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tem que ter para as festas e tem que ter para o dia a dia normal, fora das festas. O errado seria ter somente no dia a dia e não ter nos eventos, como parece sugerir a jornalista paraibana. Isso me lembra uma conversa que tive com um colega outro dia que disse que é um absurdo ter copa do mundo em um país como o Brasil, com tantos problemas sociais. Argumentei: O que tem a ver uma coisa com a outra? Tal evento, quem sabe, será uma grande oportunidade para, inclusive, ajudar o país a desenvolver em alguns pontos, para, quem sabe, ajudar a diminuir algumas das disparidades sociais que temos. Por que não? Se isso vai acontecer é outra história, mas caberia ao poder público trabalhar para isso. Grande parte do investimento nesses eventos como copa do mundo, olimpíada, e até no carnaval, virá da iniciativa privada, é bom dizer, só para lembrar.
Demonstra preconceito mais uma vez quando fala que carnaval é festa pra bêbado. Será que ela já fez uma pesquisa quantitativa para ter base empírica para tal afirmação leviana e sem embasamento algum? Pois eu mesmo sou testemunha e conheço muitas pessoas que curtem carnaval, vão pra rua, desfilam, saem em blocos e não ingerem uma gota de álcool sequer.
Diz que carnaval é bom para dono de trio elétrico, cervejaria e algumas bandas baianas. Quanto preconceito e reducionismo numa frase só. Mas ela se esqueceu de dizer que é bom também para a mídia, ramo do qual ela faz parte, isso para não citar outras dezenas de empresas que se beneficiam direta e indiretamente do carnaval.
Ela toca em um ponto importante ligado aos acidentes. Mas pergunto: Os acidentes são em decorrência do sexo, da bebida e da festa da carne? Acredito que uma ínfima parte sim. A outra parte está ligada a imprudência. Mas não é só no carnaval que acontece isso. Na semana santa também, no reveillon, no natal e outros feriados também. Imagina quantas pessoas se acidentam indo rezar em Aparecida do Norte no feriado do dia 12 de outubro? Imagina quantos acidentes acontecem durante o São João no Estado da jornalista quando pessoas saem de diversas cidades para ir para Campina Grande, no interior da Paraíba? Faça uma pesquisa com os comerciantes de Campina Grande se eles gostam ou não do período do São João, que dura perto de 1 mês. Ela fala das possíveis meninas que ficam grávidas durante o carnaval, e o governo gastaria milhões com curetagem dessas moças que teriam praticado tal ato de forma impensada. Vamos falar sério não é? Agora a culpa é do carnaval? Não é dos pais não? A menina engravida e a culpa é da festa. Isso me lembra o camarada que passa mal porque tomou uma caixa de cerveja, e um pastel, e coloca a culpa no pastel... dureza. Mesma coisa vale para o argumento sobre as possíveis DST’s.
Não conheço a Jornalista, nem sei de que emissora ela é. Mas gostaria apenas de fazer um contraponto a seus pontos de vista, pois acredito que ela tenha feito uso de um discurso frágil sem embasamento, porém com palavras fortes e que vai ao encontro de muita gente que usa de falso moralismo para defender tal ponto de vista. Sou adepto da alegria e não recrimino nenhum tipo de manifestação que faça o ser humano ser feliz, mesmo que seja durante apenas 4 dias em um ano.
Não gosta do carnaval? Simples, não participe, mas não queira melar a festa das pessoas que gostam e que usam dessa época do ano como oportunidade para extravasar um pouco de suas emoções, sejam elas boas ou ruins. Não cabe a ninguém julgar, muito menos pessoas que não conhecem nada de tal assunto.